Enquanto o Brasil se prepara para mais um ciclo eleitoral, os discursos dos candidatos voltam a girar em torno de temas como saúde, educação, segurança pública, desenvolvimento econômico e inclusão social. No entanto, uma questão cada vez mais urgente continua ocupando pouco espaço no debate público: o envelhecimento da população brasileira e a exclusão silenciosa enfrentada por milhões de idosos.
Nas últimas décadas, a sociedade brasileira avançou
significativamente na promoção dos direitos humanos e na inclusão de grupos historicamente
marginalizados. Conquistas importantes ampliaram o reconhecimento da
diversidade e fortaleceram a luta por igualdade de oportunidades. Esses avanços
são legítimos, necessários e representam uma evolução democrática que merece
ser celebrada.
Entretanto, em meio a tantas pautas de inclusão, uma
pergunta se impõe: quem está olhando para os idosos? Nunca se falou tanto em
acessibilidade, respeito às diferenças e cidadania. Paradoxalmente, milhares de
brasileiros com mais de 60 anos enfrentam dificuldades crescentes para exercer
direitos básicos. Em muitos casos, não por falta de leis, mas pela forma como
os serviços públicos e privados passaram a funcionar.
A transformação digital trouxe inúmeros benefícios
para a sociedade. Hoje é possível marcar consultas, solicitar documentos, pagar
contas, abrir contas bancárias e resolver diversas questões sem sair de casa.
Para grande parte da população, a tecnologia representa praticidade e rapidez.
Mas existe um outro lado dessa realidade.
Para milhões de idosos, a digitalização excessiva tem
se transformado em uma nova forma de exclusão social. O atendimento presencial
vem desaparecendo de bancos, repartições públicas, operadoras de saúde,
empresas de telefonia e concessionárias de serviços essenciais. Em seu lugar,
surgem aplicativos, plataformas digitais, centrais automatizadas e sistemas que
exigem conhecimentos tecnológicos nem sempre acessíveis a todos.
O resultado é que muitos idosos encontram dificuldades
para realizar tarefas simples do cotidiano. Alguns dependem de familiares para
acessar serviços. Outros enfrentam obstáculos por limitações visuais, auditivas
ou cognitivas naturais do envelhecimento. Há ainda aqueles que simplesmente não
tiveram oportunidade de desenvolver familiaridade com as novas tecnologias.
Quando o atendimento humano desaparece, desaparece
também uma parte da autonomia dessas pessoas. O problema torna-se ainda mais
preocupante diante de uma realidade demográfica incontestável: o Brasil está
envelhecendo. A expectativa de vida aumentou e a participação da população
idosa cresce a cada ano. Ainda assim, a estrutura de muitos serviços parece
caminhar na direção oposta, ignorando as necessidades de quem mais precisa de
acolhimento e atenção.
A questão vai além da tecnologia. Trata-se de
cidadania. Uma sociedade verdadeiramente inclusiva não pode considerar moderno
um sistema que exclui justamente aqueles que ajudaram a construir o país.
Quando uma pessoa idosa não consegue acessar um serviço essencial porque não
domina um aplicativo ou porque não existe alternativa presencial, o problema
não está apenas na tecnologia. Está na falta de planejamento, de sensibilidade
e de compromisso com a inclusão real.
Especialistas já alertam para um fenômeno crescente: a
invisibilidade digital da pessoa idosa. Trata-se de uma exclusão silenciosa,
muitas vezes ignorada pelas estatísticas, mas presente diariamente na vida de
milhões de brasileiros. Nesse contexto, o período eleitoral deveria representar
uma oportunidade para que candidatos e gestores públicos assumam compromissos
concretos com o envelhecimento da população.
Não basta defender inclusão de forma genérica. É
necessário apresentar propostas específicas para garantir que os idosos
continuem exercendo plenamente seus direitos. Entre as medidas urgentes estão a
manutenção do atendimento presencial nos serviços essenciais, a criação de
programas permanentes de alfabetização digital, a ampliação de centros de
convivência, o fortalecimento das políticas de saúde voltadas ao envelhecimento
e a implantação de mecanismos que identifiquem e acolham adequadamente esse
público.
Também é fundamental que empresas e instituições
compreendam que modernização não pode significar exclusão. A tecnologia deve
ampliar direitos, e não criar barreiras para quem mais necessita deles.
A preocupação com a população idosa não é apenas uma
questão de sensibilidade social. É uma obrigação legal.
A Constituição Federal estabelece, em seu artigo 230,
que a família, a sociedade e o Estado têm o dever de amparar as pessoas idosas,
assegurando sua participação na comunidade, defendendo sua dignidade e
garantindo seu bem-estar. O Estatuto da Pessoa Idosa reforça esses princípios
ao reconhecer direitos específicos destinados à proteção e à inclusão desse
segmento da população.
Mais do que uma pauta social, trata-se de uma questão
de justiça e respeito. As eleições passarão. Os discursos serão substituídos
pela rotina da administração pública. Mas a pergunta continuará presente: os
idosos permanecerão invisíveis ou finalmente ocuparão o espaço que merecem nas
políticas públicas?
O futuro de uma nação não pode ser construído
ignorando aqueles que construíram seu passado. O envelhecimento da população
brasileira não é um problema do amanhã. É uma realidade do presente que exige
planejamento, responsabilidade e ação imediata.
Uma sociedade verdadeiramente inclusiva não é aquela
que apenas reconhece direitos. É aquela que garante que todos possam
exercê-los. Quando um idoso encontra barreiras para acessar serviços básicos, não
é apenas um cidadão que está sendo excluído. É a própria ideia de cidadania que
está sendo colocada à prova. O idoso não pode ser deixado para trás.
Fonte: https://jlpolitica.com.br/colunas/aparte/posts/em-carmopolis-evento-de-fabio-mitidieri-faz-uma-verdadeira-salada-de-frutas-com-politicos-da-situacao-e-da-oposicao/notas/opiniao-inclusao-pela-metade-avanco-dos-direitos-das-minorias-e-o-esquecimento-da-populacao-idosa-na-era-digital
– por Gilson Doria
