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quinta-feira, 25 de junho de 2026

Inclusão pela metade: avanço dos direitos das minorias e o esquecimento da população idosa na era digital


Enquanto o Brasil se prepara para mais um ciclo eleitoral, os discursos dos candidatos voltam a girar em torno de temas como saúde, educação, segurança pública, desenvolvimento econômico e inclusão social. No entanto, uma questão cada vez mais urgente continua ocupando pouco espaço no debate público: o envelhecimento da população brasileira e a exclusão silenciosa enfrentada por milhões de idosos.

 

Nas últimas décadas, a sociedade brasileira avançou significativamente na promoção dos direitos humanos e na inclusão de grupos historicamente marginalizados. Conquistas importantes ampliaram o reconhecimento da diversidade e fortaleceram a luta por igualdade de oportunidades. Esses avanços são legítimos, necessários e representam uma evolução democrática que merece ser celebrada.

 

Entretanto, em meio a tantas pautas de inclusão, uma pergunta se impõe: quem está olhando para os idosos? Nunca se falou tanto em acessibilidade, respeito às diferenças e cidadania. Paradoxalmente, milhares de brasileiros com mais de 60 anos enfrentam dificuldades crescentes para exercer direitos básicos. Em muitos casos, não por falta de leis, mas pela forma como os serviços públicos e privados passaram a funcionar.

 

A transformação digital trouxe inúmeros benefícios para a sociedade. Hoje é possível marcar consultas, solicitar documentos, pagar contas, abrir contas bancárias e resolver diversas questões sem sair de casa. Para grande parte da população, a tecnologia representa praticidade e rapidez.

 

Mas existe um outro lado dessa realidade.

 

Para milhões de idosos, a digitalização excessiva tem se transformado em uma nova forma de exclusão social. O atendimento presencial vem desaparecendo de bancos, repartições públicas, operadoras de saúde, empresas de telefonia e concessionárias de serviços essenciais. Em seu lugar, surgem aplicativos, plataformas digitais, centrais automatizadas e sistemas que exigem conhecimentos tecnológicos nem sempre acessíveis a todos.

 

O resultado é que muitos idosos encontram dificuldades para realizar tarefas simples do cotidiano. Alguns dependem de familiares para acessar serviços. Outros enfrentam obstáculos por limitações visuais, auditivas ou cognitivas naturais do envelhecimento. Há ainda aqueles que simplesmente não tiveram oportunidade de desenvolver familiaridade com as novas tecnologias.

 

Quando o atendimento humano desaparece, desaparece também uma parte da autonomia dessas pessoas. O problema torna-se ainda mais preocupante diante de uma realidade demográfica incontestável: o Brasil está envelhecendo. A expectativa de vida aumentou e a participação da população idosa cresce a cada ano. Ainda assim, a estrutura de muitos serviços parece caminhar na direção oposta, ignorando as necessidades de quem mais precisa de acolhimento e atenção.

 

A questão vai além da tecnologia. Trata-se de cidadania. Uma sociedade verdadeiramente inclusiva não pode considerar moderno um sistema que exclui justamente aqueles que ajudaram a construir o país. Quando uma pessoa idosa não consegue acessar um serviço essencial porque não domina um aplicativo ou porque não existe alternativa presencial, o problema não está apenas na tecnologia. Está na falta de planejamento, de sensibilidade e de compromisso com a inclusão real.

 

Especialistas já alertam para um fenômeno crescente: a invisibilidade digital da pessoa idosa. Trata-se de uma exclusão silenciosa, muitas vezes ignorada pelas estatísticas, mas presente diariamente na vida de milhões de brasileiros. Nesse contexto, o período eleitoral deveria representar uma oportunidade para que candidatos e gestores públicos assumam compromissos concretos com o envelhecimento da população.

 

Não basta defender inclusão de forma genérica. É necessário apresentar propostas específicas para garantir que os idosos continuem exercendo plenamente seus direitos. Entre as medidas urgentes estão a manutenção do atendimento presencial nos serviços essenciais, a criação de programas permanentes de alfabetização digital, a ampliação de centros de convivência, o fortalecimento das políticas de saúde voltadas ao envelhecimento e a implantação de mecanismos que identifiquem e acolham adequadamente esse público.

 

Também é fundamental que empresas e instituições compreendam que modernização não pode significar exclusão. A tecnologia deve ampliar direitos, e não criar barreiras para quem mais necessita deles.

 

A preocupação com a população idosa não é apenas uma questão de sensibilidade social. É uma obrigação legal.

 

A Constituição Federal estabelece, em seu artigo 230, que a família, a sociedade e o Estado têm o dever de amparar as pessoas idosas, assegurando sua participação na comunidade, defendendo sua dignidade e garantindo seu bem-estar. O Estatuto da Pessoa Idosa reforça esses princípios ao reconhecer direitos específicos destinados à proteção e à inclusão desse segmento da população.

 

Mais do que uma pauta social, trata-se de uma questão de justiça e respeito. As eleições passarão. Os discursos serão substituídos pela rotina da administração pública. Mas a pergunta continuará presente: os idosos permanecerão invisíveis ou finalmente ocuparão o espaço que merecem nas políticas públicas?

 

O futuro de uma nação não pode ser construído ignorando aqueles que construíram seu passado. O envelhecimento da população brasileira não é um problema do amanhã. É uma realidade do presente que exige planejamento, responsabilidade e ação imediata.

 

Uma sociedade verdadeiramente inclusiva não é aquela que apenas reconhece direitos. É aquela que garante que todos possam exercê-los. Quando um idoso encontra barreiras para acessar serviços básicos, não é apenas um cidadão que está sendo excluído. É a própria ideia de cidadania que está sendo colocada à prova. O idoso não pode ser deixado para trás.

 

Fonte: https://jlpolitica.com.br/colunas/aparte/posts/em-carmopolis-evento-de-fabio-mitidieri-faz-uma-verdadeira-salada-de-frutas-com-politicos-da-situacao-e-da-oposicao/notas/opiniao-inclusao-pela-metade-avanco-dos-direitos-das-minorias-e-o-esquecimento-da-populacao-idosa-na-era-digital – por Gilson Doria

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Na era digital, estudantes se apegam aos livros de papel



Eles mandam mensagens de texto para seus amigos todos os dias. À noite, pesquisam para os trabalhos de conclusão de curso em seus laptops e conversam com seus pais no Skype. Mas enquanto seguem seu caminho no Hamilton College, uma faculdade de artes exemplar e liberal nessa cidade ao norte do Estado de Nova York, os alunos ainda carregam pelo campus pesados e antigos livros didáticos – e adoram isso.
“A tela não apaga”, diz Faton Begolli, estudante do segundo ano de Boston. “Não tem vírus. Não seria o mesmo sem livros. Eles definiram a 'academia' por mil anos.”
Embora o mundo impresso esteja diminuindo diante de uma onda de livros digitais, blogs e outros sites, uma geração de estudantes universitários influenciada pela tecnologia parece continuar aderindo aos livros tradicionais. A lealdade tem um preço. Os livros são caros – para um ano inteiro, podem custar de US$ 700 a US$ 900 (R$ 1.187 a R$ 1.526) – e as frustrações dos estudantes com a despesa, assim como o surgimento de novas tecnologias, produziram uma variedade confusa de alternativas para obtê-los.
Lojas na internet como a Amazon e Textbooks.com vendem livros novos e usados. Surgiram vários outros serviços na internet que alugam livros para estudantes por semestre. Cerca de 1.500 livrarias universitárias também oferecem aluguel neste semestre, 300 a mais do que no ano passado. Em Hamilton, os alunos este ano têm uma nova forma para evitar os intermediários: um site sem fins lucrativos, criado pelo Clube de Empreendedores da faculdade, que permite que eles vendam livros usados uns para os outros.
A explosão de lojas e formatos – incluindo livros digitais, que estão rapidamente se tornando mais sofisticados – deixaram alguns estudantes confusos. Depois de passar pela difícil seleção de curso, eles são obrigados a avaliar a relação entre o custo e a conveniência, analisar seus próprios hábitos de estudo e imaginar quais textos eles desejarão ter durante anos e quais não farão falta.
“Depende da matéria”, diz Victoria Adesoba, aluna do curso preparatório para medicina na Universidade de Nova York, que estava do lado de fora da livraria da escola, com uma bolsa azul clara cheia de livros pendurada no ombro. “No último semestre, aluguei livros de psicologia, e foi barato. Mas para matérias como química orgânica, preciso ter o livro. Os livros na internet são bons, mas é tentador entrar no Facebook, e isso pode cansar a vista.”
Apesar de tudo o que é dito sobre sua geração ser a mais adepta à tecnologia da história, os livros de papel não parecem destinados ao esquecimento tão cedo.
De acordo com a Associação Nacional de Livrarias Universitárias, os livros digitais representam apenas 3% das vendas de livros didáticos, embora a associação espere que este número aumente para 10% a 15% em 2012 à medida que mais títulos se tornam disponíveis em formato digital.
Em dois estudos recentes – um feito pela associação e outro por Grupos de Pesquisas de Interesse Público Estudantil – três quartos dos alunos entrevistados disseram que ainda preferem um livro de papel à versão digital.
Muitos estudantes relutam em abrir mão da possibilidade de folhear rapidamente entre os capítulos, escrever nas margens e grifar passagens, embora novos aplicativos permitam que os alunos usem os livros digitais dessa forma.
“Os estudantes cresceram com livros impressos”, diz Nicole Allen, diretora da campanha de livros didáticos para os grupos de pesquisa, “então, à medida que passam para o ensino superior, não surpreende que levem consigo uma preferência pelo formato com o qual estão mais acostumados.”
De fato, muitos alunos de Hamilton falaram de forma apaixonada sobre os pesados tomos que ainda carregam do quarto para a sala de leituras e para a biblioteca, mesmo enquanto checam compulsivamente mensagens de texto e e-mails em seus smart phones.
“Acredito que o codex é uma das melhores invenções da humanidade”, diz Jonathan Piskor, aluno do segundo ano na Carolina do Norte, usando o termo latino para livro.
Essa paixão pode ser a razão pela qual as Livrarias Universitárias da Barnes & Noble estejam trabalhando duro para divulgar seu novo aplicativo, o NOOKstudy, que permite que os alunos naveguem em livros digitais em Macs e Pcs. A companhia, que opera 636 livrarias em campi universitários do país, incluindo uma em Hamilton, ofereceu inscrições gratuitas no verão passado na esperança de persuadir mais estudantes a comprarem seus livros eletrônicos.
“O verdadeiro obstáculo é fazer com que eles experimentem”, diz Tracey Weber, vice-presidente executiva da companhia para livros didáticos e educação digital.
A companhia está oferecendo gratuitamente “Kits de Introdução Universitários” para alunos que baixarem o NOOKstudy neste semestre, com receitas de macarrão instantâneo e uma dúzia de livros eletrônicos clássicos como “The Canterbury Tales” e “The Scarlet Letter”. O CourseSmart, um consórcio de grandes editoras de livros didáticos, permite que os estudantes experimentem qualquer livro didático eletrônico gratuitamente por duas semanas.
Mas nem todo livro didático está disponível em formato digital ou para alugar. Em Hamilton, por exemplo, cerca de apenas um quinto dos títulos são vendidos no formato eletrônico neste semestre. Uma caminhada pela loja do campus revelou a diferença de preço. Um livro sobre legislação constitucional, por exemplo, custava US$ 189,85 (R$ 321) novo, US$ 142,40 (R$ 241,51) usado, e US$ 85,45 (R$ 144,9) para alugar. (Normalmente, um livro eletrônico é mais barato do que um livro usado, embora mais caro do que um para aluguel.)
O gasto com livros didáticos universitários, que estima-se tenha aumentado quatro vezes mais que o valor da inflação nos últimos anos, tornou-se uma preocupação e uma causa para alguns políticos. No mês passado, o senador Charles E. Schumer de Nova York pediu que mais livrarias universitárias alugassem livros, depois que uma pesquisa realizada em 38 livrarias de campi da Cidade de Nova York e Long Island por seu gabinete descobriu que 16 delas não ofereciam esta opção.
Na quinta-feira, os alunos de mais de 40 faculdades de todo o país estão planejando um dia de ação em prol de livros didáticos mais acessíveis, organizado pelos Grupos de Pesquisa de Interesse Público Estudantil, para encorajar membros das faculdades a indicarem textos mais baratos, ou que sejam oferecidos gratuitamente online.
Por enquanto, comprar livros da forma antiga – novos ou usados – ainda é o mais comum. Charles Schmidt, porta-voz da Associação Nacional de Livrarias Universitárias, disse que se uma livraria de um campus vende um livro novo por US$ 100, ela normalmente compra o livro de volta por US$ 50 no final do semestre e o vende para o próximo aluno por US$ 75.
O preço que as livrarias pagam costuma cair, entretanto, se o professor retira o livro (ou a edição) do programa ou se a livraria comprou livros suficientes para atender à demanda. Quando Louis Boguchwal, um calouro de Hamilton que está se especializando em economia e matemática, tentou vender um livro de álgebra linear de US$ 100 para a livraria da faculdade, recebeu uma oferta de US$ 15.
“Foi um insulto”, disse ele. “Eles não pagam praticamente nada.”
Então Hamilton criou um site sem fins lucrativos chamado getmytexbooks.org [algo como “fique com meus livros”]. Até agora, as visitas não foram muitas: apenas 70 livros foram vendidos nesse semestre. Mas Jason Mariasis, presidente do Clube de Empreendedores, disse que espera que as vendas aumentem à medida que o site ficar mais conhecido. O site também lista centenas de outras faculdades.
Begolli, um membro do clube, vendeu recentemente três romances alemães por US$ 17 (R$ 28,8) no site. “Se eu tivesse vendido para a livraria, eu teria recebido US$ 7 ou US$ 8 (R$ 11,8 ou R$ 13,5)”, diz ele. “A livraria reina no que diz respeito às vendas de livros didáticos. Nós achamos que deveria haver uma coisa para os estudantes, feita pelos estudantes.”
Mas alguns estudantes precisam se virar. Rosemary Rocha, 26, aluna de hotelaria e turismo na NYU, somou o preço de suas leituras obrigatórias para o semestre: US$ 600 (R$ 1.017). “É pesado”, diz ela. “Estou recebendo seguro desemprego, então não é possível.”
Em vez disso, ela espera para emprestar as poucas cópias que os professores deixam reservadas na biblioteca, ou depende da gentileza de seus colegas de classe. “Meus amigos me emprestam seus livros em troca de um café ou um pedaço de pizza”, diz. “Raramente compro livros, mas sempre fico meio perdida.”

The New York Times - Lisa W. Foderaro
Tradução: Eloise De Vylder
Fonte: UOL