Geriatra explica quais hábitos ajudam a preservar a autonomia, por que a segurança financeira não é suficiente e como começar a se preparar
Você já parou para pensar em como deseja chegar à
velhice? Mais do que cuidar da saúde e guardar dinheiro para a aposentadoria,
preparar-se para envelhecer exige atenção à saúde mental, às relações sociais e
à capacidade de manter a autonomia ao longo da vida. E, segundo especialistas,
nunca é tarde para começar.
Do ponto de vista biológico, não existe uma idade
exata em que o corpo passa a ser considerado velho. Embora a legislação
brasileira classifique como idosa a pessoa a partir dos 60 anos, o
envelhecimento do organismo é um processo gradual, que começa muito antes dessa
fase.
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o
acúmulo de danos nas células e nos tecidos ao longo dos anos provoca mudanças
nas capacidades físicas e mentais. Essas transformações, porém, não acontecem
no mesmo ritmo para todos. Por isso, duas pessoas da mesma idade podem
apresentar condições de saúde e níveis de autonomia bastante diferentes.
Quem não ligou a mínima para que a OMS fala é a
empresária Regina Moreira, 63, que mora em Campinas (SP). As caminhadas na
Lagoa do Taquaral, principal cartão postal da cidade, e a tentativa de manter
os músculos em forma em uma academia somam-se a outros esforços, como a
alimentação mais adequada para a idade dela. Mas bem que tem um pouco de ajuda
da vida moderna --no caso, a tinta de cabelo. É a única
"artificialidade" que ela cita.
"Não vem com essa de coisa artificial aqui não.
Só a tinta, mas nem é porque tenho vergonha do cabelo branco. Achei que não
combinou, só", brincou ao falar com o Terra. Essa "preocupação"
tem um significado. "Hoje todas as mulheres sempre querem fazer
procedimentos, querem corrigir os efeitos da idade com plástica, botox, sei lá
o que mais. Mas eu não penso assim. Estou cuidado da 'base' do meu corpo",
disse.
"Eu não tenho medo de envelhecer, não! Eu tenho
uma vida que me deixa extremamente confortável para que eu possa buscar o que
meu corpo precisa para o momento. Envelhecer é parte do processo da vida",
acrescenta. Ela tem dois filhos que vivem fora do Estado, mas "não se mete
na vida deles".
Segundo o médico geriatra Marco Polo Dias Freitas,
chefe do Serviço de Geriatria do Hospital Universitário de Brasília, da
Universidade de Brasília (HUB-UnB), essa preparação deve começar muito antes
dos 60 anos. Mas quem chega à terceira idade sem ter adotado hábitos saudáveis
ainda pode fazer mudanças para melhorar a qualidade de vida.
"Envelhecer bem não significa apenas viver mais
anos ou permanecer livre de doenças. Significa preservar, tanto quanto
possível, a autonomia, a capacidade de fazer escolhas e a possibilidade de
continuar aprendendo, contribuindo e construindo relações significativas",
afirma o especialista ao Terra.
O que fazer aos 30, 40 ou 50 anos?
De acordo com Freitas, os hábitos adotados ao longo da
vida contribuem para formar uma espécie de "capital de saúde", que
reúne condições físicas, cognitivas e emocionais importantes para enfrentar as
mudanças do envelhecimento.
O geriatra recomenda uma combinação de cuidados:
Atividade física: praticar exercícios aeróbicos, de
fortalecimento muscular e de equilíbrio;
Alimentação: priorizar alimentos in natura ou
minimamente processados e manter hidratação adequada às necessidades
individuais;
Saúde: dormir adequadamente, não fumar, evitar o
consumo nocivo de álcool e controlar doenças como hipertensão e diabetes;
Medicamentos: evitar a automedicação e o uso de
suplementos sem indicação individualizada;
Vida social: cultivar amizades, fortalecer os vínculos
familiares e participar de atividades comunitárias;
Saúde mental: aprender coisas novas, manter interesses
pessoais e desenvolver maneiras de lidar com o estresse.
Essas medidas, segundo o especialista, não garantem
uma velhice livre de doenças ou limitações, mas podem aumentar as chances de
preservar a autonomia e a qualidade de vida.
Passou dos 60 anos? Ainda há tempo para mudar
Quem chegou aos 60 ou 70 anos sem se preocupar com o
envelhecimento ainda pode mudar os próprios hábitos.
"Nunca é tarde para adotar hábitos mais
saudáveis, fortalecer vínculos sociais e encontrar novos interesses e
propósitos", afirma Freitas.
Ele explica que, embora algumas consequências de
doenças e do envelhecimento não possam ser completamente revertidas, mudanças
nessa fase podem trazer benefícios para a saúde física, a capacidade de realizar
atividades cotidianas e o bem-estar emocional.
Um dos cuidados apontados pelo médico é evitar o
isolamento social. Ele cita o Harvard Study of Adult Development, pesquisa que
acompanha participantes há mais de oito décadas e destaca a importância das
relações interpessoais para a saúde e o bem-estar.
O geriatra também chama a atenção para a definição de
envelhecimento saudável da Organização Mundial da Saúde (OMS). O conceito
considera a capacidade de realizar atividades importantes, tomar decisões,
manter relações e participar da sociedade, mesmo quando existem doenças ou
limitações.
Para Freitas, a qualidade do envelhecimento não
depende apenas das escolhas individuais. Condições econômicas, acesso aos
serviços de saúde e o ambiente em que a pessoa vive também influenciam a
capacidade de manter a autonomia.
"Não devemos encarar os 60 ou 70 anos como um
prazo vencido para cuidar da saúde ou transformar a própria vida. Sempre há
possibilidades de adaptação, aprendizado e crescimento", conclui.
Fonte:
https://www.terra.com.br/vida-e-estilo/saude/voce-esta-preparado-para-envelhecer-veja-o-que-fazer-para-chegar-bem-a-terceira-idade,95d545d4a47d6a5a27194dcc0a51f82br35rmrt2.html?utm_source=clipboard
- Por: Felipe de Souza - Foto: Reprodução / SHVETS Production via Pexels
