Um estudo apresentado pela European Society of Cardiology (ESC) e divulgado pelo portal ScienceDaily analisou a relação entre aditivos alimentares e saúde cardiovascular.
Um estudo apresentado pela European Society of
Cardiology (ESC) e divulgado pelo portal ScienceDaily analisou a relação
entre aditivos alimentares e saúde cardiovascular. A pesquisa acompanhou mais
de 112 mil adultos na França por até oito anos e encontrou associação entre o
consumo frequente de determinados aditivos, presentes em alimentos
ultraprocessados, e maior risco de hipertensão arterial e
de doenças cardiovasculares. Os resultados não mostram uma ligação de
causa e efeito. Ainda assim, levantam dúvidas importantes sobre o padrão
alimentar atual e reforçam alertas já feitos por sociedades médicas.
Os participantes registraram, em um contexto de vida
real, o que comiam ao longo do tempo. Com base nessas informações, os
cientistas cruzaram a ingestão de aditivos específicos com o surgimento de
novos casos de pressão alta, infarto, acidente vascular cerebral (AVC) e outros
problemas cardíacos. Dessa forma, o trabalho reforça o debate sobre o papel
dos alimentos ultraprocessados na rotina. Além disso, mostra como
rótulos aparentemente inofensivos podem esconder substâncias associadas a maior
risco para o coração.
Como o estudo foi conduzido e quem participou da
pesquisa?
O estudo analisado pela ESC utilizou dados de uma
grande coorte francesa de base populacional, com voluntários adultos que
aceitaram registrar de forma detalhada o que consumiam. No total, mais
de 112 mil pessoas permaneceram em acompanhamento por até oito
anos. Ao longo desse tempo, os participantes informavam, em vários momentos,
sua alimentação diária, incluindo marcas, tipos de produtos e frequência de
consumo.
Com essas informações, pesquisadores cruzaram cada
item registrado com bancos de dados de composição de alimentos e identificaram
quais produtos continham determinados aditivos. Em seguida, eles calcularam a
quantidade média consumida de cada substância ao longo do acompanhamento.
Paralelamente, os cientistas monitoravam a saúde dos participantes e
verificavam o surgimento de hipertensão arterial e de eventos
cardiovasculares, como infarto do miocárdio, AVC e necessidade de procedimentos
de revascularização coronariana.
Os pesquisadores também consideraram fatores que
poderiam interferir nos resultados, como idade, sexo, tabagismo, prática de
atividade física, índice de massa corporal, histórico familiar de doença
cardíaca e outros aspectos de estilo de vida. Desse modo, a análise estatística
buscou isolar, dentro do possível, o papel de grupos específicos de aditivos.
Mesmo assim, os autores ressaltam que o estudo utilizou um desenho
observacional, no qual os cientistas apenas observam a vida real sem
intervenção direta. Esse formato impede a confirmação de que os aditivos causem
de forma direta os problemas detectados.
Quais são os oito aditivos associados a maior risco
cardiovascular?
O foco principal do estudo recaiu sobre um conjunto
de oito aditivos alimentares, amplamente usados pela indústria para conservar,
realçar cor ou sabor e evitar a deterioração de produtos. São eles:
Sorbato de potássio
Metabissulfito de potássio
Nitrito de sódio
Ácido ascórbico
Ascorbato de sódio
Eritorbato de sódio
Ácido cítrico
Extrato de alecrim
Essas substâncias costumam aparecer de forma combinada
em muitos alimentos ultraprocessados. Em geral, o nitrito de
sódio entra na composição de carnes processadas, como salsichas,
linguiças, presuntos e embutidos em geral, pois ajuda a conservar a cor rosada
e impede o crescimento de bactérias. Já o sorbato de potássio surge
com frequência em queijos industrializados, produtos de panificação, molhos
prontos e bebidas adoçadas. Por sua vez, o metabissulfito de
potássio aparece em muitos vinhos, frutos secos embalados, sucos
industrializados e alguns produtos enlatados.
Os compostos relacionados à vitamina C,
como ácido ascórbico, ascorbato de sódio e eritorbato de
sódio, funcionam como antioxidantes, pois evitam o escurecimento de alimentos,
melhoram a aparência e prolongam a validade. O ácido cítrico, por sua vez,
atua como regulador de acidez e aparece em refrigerantes, doces, balas,
sobremesas prontas, iogurtes saborizados e sucos em pó. Além disso,
o extrato de alecrim também exerce função antioxidante e entra na
composição de óleos, snacks salgados, carnes processadas e pratos prontos
congelados. Em muitos rótulos, essas substâncias surgem com nomes técnicos ou
códigos. Assim, a identificação por parte do consumidor torna-se mais difícil.
O que o estudo encontrou sobre pressão alta e doenças
do coração?
Ao comparar grupos com maior e menor ingestão desses
aditivos, os pesquisadores observaram que o consumo mais elevado se associou a
um risco estatisticamente maior de desenvolver hipertensão e eventos
cardiovasculares ao longo do período de acompanhamento. Em outros termos,
pessoas que ingeriam com frequência alimentos ricos nesses aditivos tiveram
mais episódios de problemas cardíacos do que aquelas que consumiam quantidades
menores. Além disso, o risco parecia aumentar de forma gradual conforme o
consumo de ultraprocessados crescia.
A análise indicou que a relação não se restringe a um
alimento isolado, mas ao conjunto da dieta com alto teor de alimentos
ultraprocessados. Esse padrão alimentar geralmente inclui itens com muito
sódio, gorduras saturadas e açúcares adicionados e, ao mesmo tempo, menos
fibras, frutas, legumes e preparações caseiras. Assim, o estudo sugere que o
pacote completo da alimentação industrializada, incluindo os aditivos, pode contribuir
para o aumento do risco de pressão alta e doenças do coração. Portanto, os
resultados dialogam com outras pesquisas que já relacionam ultraprocessados a
obesidade, diabetes tipo 2 e maior mortalidade.
Os autores reforçam, porém, que a pesquisa encontrou
uma associação estatística. Isso significa que os dados mostram uma
ligação observada, mas não provam que os aditivos atuem, por si só, como causa
direta dos problemas. Outros elementos presentes na dieta ou no estilo de vida
também podem participar dessa relação. Ainda assim, os resultados se mostraram
consistentes o suficiente para motivar novas investigações e discussões
regulatórias, especialmente sobre rotulagem e limites seguros de uso desses
ingredientes.
Em que tipos de alimentos esses aditivos aparecem no
cotidiano?
Os oito aditivos avaliados aparecem combinados em uma
ampla gama de produtos disponíveis em supermercados e lojas de conveniência.
Entre os exemplos mais comuns, destacam-se:
Carnes processadas: salsichas, presuntos, peito de
peru, salames e linguiças, geralmente com nitrito de sódio, extrato de alecrim
e antioxidantes como ascorbato e eritorbato de sódio.
Bebidas industrializadas: refrigerantes, sucos
prontos, bebidas adoçadas e energéticos, frequentemente com ácido cítrico e, em
alguns casos, metabissulfito de potássio.
Produtos de panificação e confeitaria: pães de forma
industrializados, bolos prontos, sobremesas e recheios, que podem conter
sorbato de potássio, ácido ascórbico e ácido cítrico.
Snacks e alimentos prontos: batatas fritas de pacote,
salgadinhos, pratos congelados e molhos prontos, com uso de extrato de alecrim,
sorbato de potássio e outros conservantes.
Frutas secas e enlatados: uvas-passas, damascos,
alimentos em conserva e alguns vegetais enlatados, com metabissulfito de
potássio e antioxidantes.
Nesse cenário, consumidores que baseiam grande parte
da alimentação em produtos prontos ou semiprontos costumam ingerir diversos
aditivos ao longo do dia, muitas vezes sem perceber. Por isso, a leitura atenta
dos rótulos, incluindo a lista de ingredientes, ajuda a identificar a presença
dessas substâncias e a frequência com que elas aparecem na rotina alimentar.
Além disso, comparar marcas, escolher versões com listas menores de
ingredientes e priorizar opções com menos aditivos são estratégias práticas
para reduzir a exposição.
O que os cientistas concluíram e quais são os próximos
passos?
Os pesquisadores envolvidos no estudo destacaram que
os resultados reforçam a necessidade de atenção ao consumo regular de
alimentos ultraprocessados, especialmente entre pessoas com risco maior de
doença cardiovascular. A associação observada sugere que reduzir a ingestão de
produtos ricos em conservantes, antioxidantes sintéticos e estabilizantes podem
representar uma estratégia relevante de saúde pública. Essa medida deve atuar
ao lado de outras ações já consolidadas, como evitar o tabagismo, manter
atividade física regular e controlar a pressão arterial.
Ao mesmo tempo, o grupo responsável pelo trabalho
afirma que a comunidade científica ainda precisa de mais estudos, incluindo
pesquisas experimentais e ensaios clínicos, para esclarecer o papel específico
de cada aditivo no organismo humano. Os pesquisadores também ressaltam a
importância de avaliar o efeito combinado dessas substâncias, já que elas
costumam aparecer juntas no mesmo produto e podem interagir entre si. Além
disso, defendem investigações em diferentes países, a fim de verificar se os
resultados se repetem em outros padrões alimentares.
Em termos práticos, a pesquisa reforça orientações que
sociedades médicas e entidades de nutrição já discutem com frequência:
priorizar alimentos in natura ou minimamente processados, dar
preferência a preparações caseiras quando possível e reservar itens ultraprocessados
para consumo ocasional, e não diário. Ao trazer dados de um grupo numeroso,
acompanhado por vários anos, o estudo apresentado pela European Society of
Cardiology amplia o debate sobre a qualidade da alimentação atual e o impacto
desse padrão sobre a pressão arterial e a saúde do coração ao longo da vida.
Dessa maneira, ele oferece mais um argumento para que consumidores,
profissionais de saúde e formuladores de políticas públicas revisem a relação
com produtos industrializados.
Fonte: https://www.terra.com.br/vida-e-estilo/saude/estudo-com-mais-de-112-mil-pessoas-associa-oito-aditivos-alimentares-comuns-a-maior-risco-de-pressao-alta-e-doencas-cardiacas,af614028fbb7035c6b6339d273c76760wt4gzgxb.html?utm_source=clipboard
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